Escola da ponte

É possível uma escola quebrar as tradições?

A Escola da Ponte (localizada em Portugal) traz uma proposta de ensino diferente onde os alunos não fazem testes (provas) para medir seus conhecimentos. Porém, a escola não deixa de ensinar pelo fato de, ao mudarem de escola no 6º ano, precisarão fazê-los.

O relato abaixo foi dito por José Pacheco, professor desta escola, e está descrito no livro Escola Viva, de Corinta Maria Grisolia Geraldi (Orgs.):

Entreguei-lhes o teste e fiquei ao lado. E eles começaram a levantar o braço (para perguntar). Eu disse: "Assim não vale, então eu não disse para tirarem as dúvidas? AGora é que começam a levantar o braço?" Mas um disse: "O professor, esse texto é o Cavaleiro da Dinamarca, só tem um bocadinho, quem vai fazer o teste ou lê o livro todo ou não entende nada".

Perguntei se ele, em 50 minutos, conseguiria ler o livro todo. Ele disse que não, mas não era essa pergunta que ele queria fazer:

"- Está escrito aqui uma pergunta que diz assim: 'O que foi que Cavaleiro viu ao longe? 'Professor, eu tenho que escrever: O Cavaleiro viu ao longe a árvore que anunciava a presença da casa onde partiu?'

"Claro que tens que escrever isso", eu respondi:

"- O professor, para que eu tenho que escrever isso, se já está escrito no texto?".

Eu comecei a pensar e, realmente, se estava escrito... Mas, como eu não tinha respostas, disse que era assim porque era assim, que era isso, que faziam na escola para onde eles iam e eu não tinha culpa. Falei: "Não tem mais pergunta nenhuma, o pessoal faz e acabou". Encostei-me no armário e pararam todos a olhar para mim: "O professor, o que é que estais aí a fazer?" Comecei a ficar preocupado: "Estou aqui porque quando os meninos fazem o teste o professor fica na sala".

"- E para que fica o professor na sala?"

"- Para não deixar copiar" - respondi.

"- Professor, o que é copiar?"

Logo, há um do lado que diz: "Eu sei, eu sei! A minha prima leva na beirinha da saia uns papelinhos..."

Então, eu passei 50 minutos a ensiná-los a copiar. E ainda bem que copiam! É uma pena que os professores vejam nos alunos potenciais desonestos, isso não tem nada a ver com educação. O exame engendra sentimentos negativos, o exame não vale nada.

Fonte: Gabriel Matemática

Sucesso na escola

Qual o segredo para a criança/adolescente conseguir um bom aprendizado na escola?

É uma pergunta super atual e buscada por muitos pais e espero, com esse texto, passar um pouquinho de informação acerca do tema.

Bernard Lahire, sociólogo francês, estudou 5 temas que precisam de uma atenção diferenciada para o sucesso dos filhos, são eles: formas familiares da cultura e escrita, condições e disposições econômicas, ordem moral doméstica, formas de autoridade familiar e formas familiares de investimento pedagógico.

  1. Formas familiares da cultura: a criança precisa ter, no ambiente doméstico, pais com algum tipo de interação com a leitura/escrita. Lahire sugere leitura de histórias ou que os filhos vejam os pais "se divertindo" com a leitura/escrita.

  2. Condições e disposições econômicas: como a família gerencia os gastos e como essa informação chega nos filhos? Existe um cenário de dívida ou uma batalha para "gerir o ingerível"?

  3. Ordem moral doméstica: moral do bom comportamento, da conformidade às regras, esforço e perseverança são alguns exemplos. Ou seja, essa criança teve uma boa relação num ambiente doméstico estável?

  4. Formas de autoridade familiar: Lahire comenta sobre a diferença do tempo na aplicação de uma sanção (com objetivo corretivo). A sanção física ou verbal imediata não oferece tempo à criança refletir e compreender sozinha seu erro.

  5. Formas familiares de investimento pedagógico: quão alto está o investimento da família na educação dos filhos? Esse investimento pode ser moral, cultural ou financeiro. Alguém da família gasta seu tempo para auxiliar a criança nas lições? Alguém gasta dinheiro em prol do desenvolvimento pedagógico/cultural desse aluno?

Escrito por: Gabriel Matemática, em 19/01/2022.

Fonte: Tumisu por Pixabay

Caminhos pós ensino médio

O que fazer depois da escola?

A busca por ser policial, bombeiro ou astronauta começa na infância. Até o final do ensino fundamental, o adolescente já entende que talvez policial não seja a sua "praia" e que astronauta é um pouco longe da sua realidade. Novos desejos, então, aparecem e relações internacionais, medicina ou enfermagem parecem desejáveis.

Até o final do ensino médio, um turbilhão de novas oportunidades são conhecidas e medicina se torna quase impossível, ao passo de que psicologia tem na cidade ao lado de fácil acesso.

O sistema nos planta um engodo quanto às disponíveis escolhas. Associar desejo, rentabilidade financeira e emocional se torna tão difícil que a aceitação por qualquer opção aos 17 anos parece obrigatória.

Para evitar o erro, o que de fato interessa é a felicidade (constante ou mínima). Ser medíocre no que faz por estar infeliz não é uma opção e a mudança precisa ser urgente.

E o dinheiro? Deixemos para outros carnavais.

Escrito por: Gabriel Matemática, em 28/10/2021.

Fonte: Gabriel Matemática

O Preço de Ser Professor

Quanto custa Ser Professor?

"Ser" com "S" maiúsculo porque não carrega somente o verbo. Traz o sentido humano-histórico de seu ofício.

Ser professor vai muito além de estudar e se sujar de giz ou tinta de caneta. É moldar o conhecimento que, já construído, precisa atingir o alvo, representado pela figura do aluno.

Ser professor é viver professor, sentir o cheiro da profissão há milhares de quilômetros pelos confins da internet. É não deixar a fake news se alastrar como coronavírus e levar a luz quando a grande distância se apequena no ambiente de sala de aula.

Ser professor é responder no WhatsApp às 22:00h, quando não às 00:00h, sobre uma possível dúvida da disciplina. O conhecimento cresce como um bebê em desenvolvimento mas está longe de tirar horas de sono.

Ser professor é utilizar dos sorrisos dos alunos como combustível. Abastecimento este que cessa nas férias e feriados prolongados.

É se emocionar a cada dezembro. Aliás, este atual já está a chegar e sentirei muita saudade da 3ª Série. Para este momento, nada melhor do que o futuro do pretérito para me auxiliar nessa escrita. Como eu gostaria de ter mais tempo.

Aaah, ser professor. São tantos os trabalhos acompanhados de tantos sorrisos que o dicionário, sendo especialista em significados, não o compreenderia.

Escrito por: Gabriel Matemática, em 15/09/2021.

Fonte: Imagem de alan9187 por Pixabay

Avanço sem Progresso

O WhatsApp trouxe uma atualização no qual um áudio pode ser escutado com 25%, 50% ou 100% de velocidade aumentada. Qual o impacto dessa tecnologia?


Arrisco o palpite em mencionar que está conectada diretamente no cotidiano das pessoas. Se ouço o áudio mais rápido, preciso sintetizar + rápida a informação para estar apto ao próximo áudio, e assim sucessivamente.

Num mundo que pede velocidade, onde problemas básicos continuam sem solução, como a exclusão dos pobres (da periferia) que nunca tiveram a chance de falar, me causa estranheza e um outro questionamento: velocidade para quem? Rapidez para atualizar o mercado financeiro ou para a empregada doméstica? Agilidade para as múltiplas ligações e contatos do empresário ou para o vendedor de loja?

Penso que o mundo se torna mais rápido porque, infelizmente, continua com o câncer historicamente construído de atender aos interesses de poucos, os que detém o poder de compra, contra os atrofiados num oceano de dinheiro.

Escrito por: Gabriel Matemática, em 01/09/2021.